OS RACIALISTAS , GILBERTO FREYRE E DARCY RIBEIRO

Por Rafael Brasil.

Na minha ignorância de comunista juvenil, não entendia porque meu ídolo Darcy Ribeiro, nunca falava mal de Gilberto Freyre, o “representante das casas grandes”, ou seja, das históricas e nefastas oligarquias da nossa história. Pelo contrário, Darcy sempre cobria Freyre de elogios. Sempre exaltava as características mestiças da nossa formação. Sobretudo, como salienta Freyre em sua obra, a mestiçagem cultural. O velho e bom Darcy sempre dizia que se não fosse a desigualdade, seríamos uma das nações mais exuberantes do mundo.
Politicamente, Darcy era de esquerda, e apostava no populismo nacionalista messiânico, tipo Vargas, que seria o mentor brasileiro. Já Gilberto Freyre, era conservador, apesar de ter sido comunista na juventude. O primeiro era ligado ao brizolismo, e o segundo apoiou o regime militar, e os governos conservadores de sua província, de onde nunca saiu.
Ao ler Casa Grande Senzala, e depois Sobrados e Mocambos me dei conta da minha ignorância provida de ideologia, como convém boa parte a muitos ignorantes. Não lia autores considerados conservadores, que estavam num certo “index” de obras não recomendáveis, digamos assim. Assim como Darcy, Freyre ressaltava nossas características mestiças, e descrevia nossa história através desta miscigenação. O branco amorenado pela dominação árabe, o português, com os indígenas e negros. De negros com indígenas, e por aí vai. Claro, ambos eram radicalmente contrários ao racismo e sempre apoiaram as leis brasileiras neste sentido.
Só que, com o tempo, naturalmente reconheci o óbvio. Gilberto Freyre é bem maior do que Darcy, sem querer fazer comparações, mais isto hoje é mais do que claro, digamos assim. Gilberto Freyre foi escanteado pelos intelectuais uspianos, notadamente marxistas, tratado como um intelectual menor. Meramente descritivo, chegado ao pitoresco, tendo sua obra , psicologicamente falando, como saudosa da sociedade patriarcal escravocrata. Que era anti-semita e brando em relação à opressão escravocrata sobre os negros africanos. Hoje ele é cada vez mais estudado, e suas obras são sempre reeditadas. Até Fernando Henrique, que fazia parte dos intelectuais marxistas ou próximos ao marxismo uspiano, pediu desculpas pelas bobagens que compartilhou durante décadas sobre a obra feyreana.
Hoje assistimos arautos do racialismo no país. Os negros são pouco mais de 4% da população. Já os mestiços, a grande maioria. Aí vem essa turma com a história de cotas para negros e outras bobagens. Incitando os negros ou mestiços a brigar com os brancos. Aliás, qual a verdadeira porcentagem de brancos no país?
Nas escolas, nos livros de história incluíram história africana. Mas como, se a África é um grande mosaico das mais variadas culturas, onde, em muitos casos, ainda impera o tribalismo? A própria escravidão negra era praticada, bem antes da chegada dos europeus, há séculos, pelos próprios negros africanos, sobretudo os muçulmanos. Aqui no Brasil, milhares de negros, quando libertos, tornavam-se severos senhores de escravos, afinal, todos tinham escravos. Os ricos para tocarem suas plantações, minerações, e serviços domésticos. Os pobres, com os chamados escravos de ganho. Que faziam pequenos serviços como vender doces nas ruas, ou mesmo os antigos serviços de prostituição, trazendo os lucros para o seu dono de ocasião. Em outras palavras, a questão da escravidão era um fato muito mais complexo do que uma briga entre europeus maus contra negros escravizados bons, sobretudo pela sua condição, deplorável incontestavelmente, de escravos.
O que temos mesmo é seguir a orientação de Darcy, que foi também um grande participante na cena política nacional há mais de cinquenta anos. Temos que fazer uma ótima escola para o nosso povo. Deveria haver uma verdadeira mobilização nacional neste sentido. Uma escola com bons, porque bem formados professores, e com salários dignos, claro. Com códigos de disciplina rígidos, sem essa de bagunça. Com a alfabetização essencialmente fonética, como no passado, e participação efetiva das comunidades e das famílias no processo educacional.
O chamado “sócio construtivismo” ao tirar do professor a centralidade do processo educacional, desmontou completamente nossa educação. Tiraram a autoridade dos professores, e a colocaram nas mãos de crianças e adolescentes, naturalmente cruéis e impetuosas, mimadas e autoritárias. Resultado: Temos já mais do que uma geração de pessoas bem nutridas, mas ignorantes. Sem educação familiar, e religiosa, temos a química perfeita para o desastre. Ou seja, a maior causa de morte de jovens no país hoje é a violência. Hoje os jovens nem respeitam os pais, estes cheios de culpas em limitar os ímpetos maléficos dos filhos, nem os professores, nem tampouco as religiões, as quais sempre tiveram sólidos princípios morais, construídos milenarmente: resultado: são mortas pelas gangues, pela polícia e tudo o mais. A criminalidade nunca chegou a estes limites de uma verdadeira guerra civil. Aonde os homens de bem, defensores da família e das instituições, são tratados, sobretudo pela mídia como “conservadores e caretas”. Enquanto escrevo, tenho muita pena dos professores, hoje, UMA DAS PIORES PROFISSÕES DO BRASIL. Tem-se que aguentar perorações de pedagogos claramente equivocados, e o barbarismo de crianças e adolescentes nas salas de aulas, sem ter quem os defenda. Por essas e outras todos fogem das salas de aula. É triste passar a vida sendo insultado por jovens impetuosos e naturalmente ignorantes, em que os pais “despejam” diariamente nas escolas sem a devida contrapartida de uma pelo menos razoável educação doméstica. Pobre país...
Hoje, nem temos mais , digamos, intelectuais. Até os anos setenta ainda os tínhamos, e podíamos nos deleitar com suas posições e controvérsias. Na falta de uma elite intelectual, segue-se a pobreza cultural. Na falta de paradigmas, até a classe média segue a subcultura do antigamente chamado lumpesinato. Vide as porcarias que hoje assistimos nas mídias. Dá vontade de chorar. Hoje, mais do que nunca, reina a imbecilidade, como diria o finado Nélson Rodrigues. Que deve tremer no seu túmulo diante das idiotices do nosso “universo” cultural que ele criticava com humor e sarcasmo nos anos sessenta. Que para nós hoje, era um mundo iluminado.

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