O GOLPE E O REGIME MILITAR – RAFAEL BRASIL


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Muito tem se falado sobre o golpe militar e o regime que resultou. Logo agora que o presidente recomendou que o regime fosse comemorado dentro dos quartéis, ou mesmo fosse incentivado debates e discussões como palestras nos mesmos, na data em que foi desencadeado.
Pululam nas redes sociais debates acalorados sobre o que a direita chama de a redentora, e a esquerda de golpe militar fascista. Evidentemente, pelas paixões suscitadas, as narrativas não correspondem os fatos históricos em questão. Afinal a conjuntura internacional, e o acirramento da crise econômica do governo Goulart, favoreceu a radicalização e a intervenção militar.  Porém, a esquerda também era totalitária, e a revolução cubana teve um importante papel na época. Ademais a própria revolução cubana foi contrária a política soviética para a América Latina de não revolução, mas de uma aliança da esquerda com os setores ditos nacionalistas contra o imperialismo americano. Fidel ao tomar o poder teve inclusive apoio dos Estados Unidos, e só depois, mais precisamente em 1960, declarou a revolução socialista e o alinhamento com a União Soviética.
Do ponto de vista da esquerda, a revolução cubana mostrou que a revolução poderia surgir com o que poderíamos chamar de voluntarismo revolucionário, em poucas palavras, da vontade e disposição de grupos guerrilheiros, em tomar o poder pela luta armada, contrariando as orientações de Moscou. Aliás já havia um rompimento da URSS com o stalinismo com o famoso XX congresso do partido em 1956, que aqui redundaria na divisão do PCB, em duas alas inconciliáveis. O PCB alinhado a Moscou, e o PC do B, alinhado ao stalinismo e depois com o maoísmo.
O clima depois da renúncia de Jânio Quadros era de radicalização política. Naquele tempo, era permitido votar em candidatos distintos para presidente e vice. Assim, Jango foi eleito vice de Jânio. Ou seja, um presidente de direita, ou pelo menos alinhado com os conservadores, e um vice de esquerda. A renúncia, depois de sete meses de governo, acirraria a crise, pois quando Jânio renunciou, Jango estava justamente em visita à China comunista. Com a renúncia houve uma grande resistência à posse do vice, resultando na adoção do parlamentarismo, logo abortado com um movimento pela legalidade capitaneado por Brizola, um dos autoproclamados herdeiros do varguismo.
A radicalização política aumentou, juntamente com a guerra fria. Grupos castristas a maoístas, treinavam e formavam guerrilheiros em Cuba e na China, enquanto militares conspiravam. A crise econômica acirrou os ânimos, colocando lenha na fogueira. Aqui em Pernambuco surgia as ligas camponesas comandadas pelo advogado Francisco Julião, e o governador era Miguel Arraes, que foi, corretamente um legalista, e anti radical. A direita, comandava um grande movimento cívico, com a intensa participação da Igreja católica, arrastando multidões às ruas das grandes cidades, sobretudo o Rio de Janeiro.
Quem desencadeou o estopim foi o general Mourão Filho, partindo com tanques de Juiz de Fora, numa ação impetuosa e voluntarista, pois os conspiradores foram pegos de surpresa. Como não houve reação do então proclamado esquema militar de Jango, do general Assis Brasil, os militares, juntamente com amplos setores da sociedade civil e muitos políticos, foram aderindo ao golpe, saindo da tocaia. E tudo aconteceu depois de um comício de Jango na estação central do Brasil, onde o mesmo radicalizou o discurso, bradando para o que a esquerda chamava de reformas de base. E como não houve resistência, os golpistas tomaram o poder, prometendo eleições presidenciais, em 1966. A maioria dos políticos apoiaram o golpe, como Juscelino, e Carlos Lacerda, que seriam os principais concorrentes. Os dois foram cassados posteriormente, pois os golpistas transformaram o governo num  regime militar, uma ditadura que foi se radicalizando, por vinte anos, até a abertura promovida pelo general Ernesto Geisel, quando o regime já estava se desmoralizando pela crise econômica, causada sobretudo pela crise do petróleo em 1973.
Foi numa ditadura envergonhada, nem tanto de direita, mas de cunho positivista, como aliás é a base de nossa malfadada república. Os radicais de esquerda contribuíram consideravelmente pela radicalização política, quando em 1968 foi dado um golpe dentro do golpe, com o endurecimento do regime. Evidentemente houve violência de ambas as partes, do governo e dos terroristas, que pregavam a ditadura comunista no país. Evidentemente perderam os democratas, que experiemetaram o gosto amargo da repressão política e da censura à imprensa.
Os militares fizeram uma verdadeira revolução econômica, investindo maciçamente em infra estrutura, alavancando a economia de uma forma excepcional. Durante o governo Médici, o mais duro na repressão, o Brasil chegoiu a crescer 12% ao ano. Nossa economia passou da quadragésima a oitava no ranking  mundial. Se tivéssemos eleições diretas, Médici ganharia com cerca de 80% dos votos, dada a sua imensa popularidade.
Como bons positivistas, os milicos não roubaram, mas, digamos, fizeram a cama para roubarem no futuro. Encheram o país de estatais, e pasmem: As oposições ainda chamavam o governo de entreguista e anti nacionalista.
O regime militar deve ser analisado pelos historiadores, enfim. As esquerdas, depois no poder com a redemocratização, criaram a narrativa de que os integrantes da luta armada foram mártires pela democracia. Narrativa ridícula amplamente desmentida por historiadores de esquerda como Jacob Gorender. Pintaram a ditadura como, fascista, e extremamente brutal em sua repressão. O aparato repressivo foi devidamente desmontado por Geisel que enquadrou a linha dura do regime permitindo a abertura e a redemocratização.
Como bem ressaltou o jornalista Élio Gaspari, que teve acesso ao arquivo de Heitor de Aquino, um dos ideólogos do regime, todos queriam golpe. Miguel Arraes, uma semana antes do golpe, ao ser interpelado por um jornalista se haveria golpe, disse: Vai sim só não sei de que lado. Nisso estava certo, pois o golpe veio, e ele foi preso, e depois, como muitos, seguiria para o exílio. Mas isso é outra história.
Justamente quem não conhece a nossa história, fica reproduzindo a narrativa da esquerda, e isto sobretudo está descrito nos livros didáticos. Hoje, com a eleição de um candidato de direita, há um saudável confronto de narrativas. Isto é bom que acirra os debates, e nos mostra que a discussão do período é tarefa para historiadores, e, claro, para esclarecer muitas questões a respeito da democracia no Brasil, e na América Latina. Afinal nossa democracia foi vilipendiada pela própria esquerda no poder, que resultou neste mar de lama , nunca antes visto no país. Porém, é como dizia o saudoso Roberto Campos, que realmente formou a tecnoburocracia nacional quando foi ministro da economia de Castelo Branco, e criou as bases para o grande crescimento econômico do regime militar. As ditaduras de direita são biodegradáveis, as de esquerda, muito piores. Basta estudar um pouco de História para ver que ele estava certo. Afinal, os conservadores são chatos mas estão certos. É isso aí.

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