Fogo amigo | Fernando Limongi


- Valor Econômico

O número de vítimas não para de crescer

Guerras são assim, fazem vítimas. A semana foi particularmente letal, pródiga em baixas e ameaças a altas patentes dos três lados que transformaram a política brasileira em uma batalha. Cada lado, como seria de se esperar, viu a vitória próxima nos petardos que atingiram os inimigos e saiu de banda, preferindo o silêncio, quando alvejado. A novidade é que, nos três casos, o ataque foi desferido das próprias fileiras. Rodrigo Janot terá que se haver com Marcelo Miller, Michel Temer com Geddel Vieira Lima e Lula com Antonio Palocci.

A Procuradoria-Geral da República foi atingida em cheio. As novas gravações de Joesley Batista revelaram entranhas das operações desfechadas pelas forças-tarefas. Promotores treinaram delatores para armar arapucas para seus adversários. Rodrigo Janot foi obrigado a reconhecer fatos que comprometem a lisura da operação que comandara. A ameaça maior vem dos quadros da própria PGR, cujas operações passam a depender do que Marcelo Miller se dispuser a contar sobre a cozinha da delação da JBS e das anteriores.

O presidente Michel Temer festejou o infortúnio de Janot. Seu advogado e outros membros de sua entourage partiram para o ataque. Confirmava-se a linha de defesa adotada: tudo não passaria de armação ardilosa de um empresário falastrão, ajudado por investigadores ávidos por holofotes e dinheiro.

O alívio durou pouco. O contra ataque armado perdeu sentido e Temer voltou à defensiva diante da exibição das malas de dinheiro de Geddel Vieira Lima. A cena bizarra das caixas e malas espalhadas pela sala vazia com notas saindo pelo ladrão silenciou o Jaburu. Nenhum comentário, como se Geddel não tivesse contado até bem pouco tempo com a total confiança do presidente, confiança esta que, em razão de seu primeiro afastamento, passou a Rodrigo Rocha Loures que, não é demais lembrar, era o proprietário ocasional de outra mala famosa.

Geddel voltou a ser recolhido à prisão. Como deixou impressões digitais no dinheiro, não tem como negar que zelava pela propina encontrada. Resta saber que caminho escolherá para se defender. A emoção e o choro lhe asseguraram a porta da saída em outras oportunidades, mas desta feita, passaram a ser vistos como sinais de fragilidade e volubilidade. Temer e seu grupo dependem do improvável sacrifício de Geddel. Sacrificar-se em nome do quê? O Jaburu já não pode recorrer ao amparo extra com que contava, já não tem o que oferecer em troca do silêncio do amigo caído em luta.

Por falar em silêncio, a disposição de Palocci em quebrar o seu, entregando o jogo para Sergio Moro, sem dúvida alguma, fez a maior baixa da semana. O magistrado já havia indicado que só aceitaria a delação do braço direito de Lula se este envolvesse o ex-presidente. Tempos atrás, Palocci mostrara disposição de entregar personagens graúdos do mercado financeiro. Moro desmereceu a oferta, deixando Palocci mais um tempo na geladeira. Ao se referir ao 'pacto de sangue' que Emílio Odebrecht e Lula teriam celebrado, o ex-ministro queimou a ponte atrás de si. Não tem como voltar atrás. Moro, assim, obteve as garantias que solicitara para assinar a delação premiada do petista.

O golpe sobre o PT e a candidatura Lula são devastadores. Mesmo que seja o produto das 'prisões alongadas de Curitiba', a história contada por Palocci faz sentido e não pode ser contestada com facilidade. A imagem do líder sempre pronto a enfrentar as elites para defender o interesse dos mais pobres sai chamuscada. Nas redes sociais, a militância acusou Palocci de traidor, de não ser um verdadeiro homem de partido, como seriam José Dirceu e João Vaccari Neto. A defesa esboçada tem pernas curtas, pois acaba por reconhecer que a sobrevida de Lula depende do silêncio e do sacrifício dos companheiros.

O golpe veio de dentro, de alguém muito próximo ao ex-presidente, homem de sua inteira confiança, que privava da sua intimidade e a quem eram reservadas tarefas espinhosas, como convencer a ex-primeira dama.

O PT, portanto, pela primeira vez, está em vias de perder a referência que lhe garantia a unidade e lhe dava esperanças de sobrevida. É cada vez menos provável que Lula possa ser candidato e, mesmo que possa, que seu capital eleitoral permita que o partido adie a necessidade de enfrentar seus próprios demônios. Nem tudo pode ser jogado nas costas dos inimigos.

E a máxima vale para os outros dois grupos. As investigações das forças-tarefas podem ter sido alimentadas por estratégias questionáveis e que colocam em cheque seu compromisso com a ética e a transparência. A palavra de Miller pode abrir a brecha para que Raquel Dodge redefina a linha de atuação da instituição e o futuro das investigações.

Temer, desde que suas tratativas com Joesley vieram a público, perdeu a capacidade liderar os setores que enxergam no PT a raiz de todos os problemas do país. Muitos já abandonaram o barco que pode ir a pique pelas malas de evidência que Geddel carrega consigo.

O PT, por seu turno, que vinha jogando na retranca e apostando todas as fichas na candidatura Lula, não terá como evitar as consequências das revelações de Palocci.

A semana não poupou ninguém. O número de vítimas não para de crescer. A novidade foi o fato dos ataques partirem dos colaboradores diretos e diletos dos comandantes de cada uma das tropas. Tais ajustes de contas, ataques desfechados desde dentro, são os piores porque incontroláveis.
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Fernando Limongi é professor do DCP/USP e pesquisador do Cebrap.

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