Notícia Publicada em 23/10/2015 12:17 

Presidente do PPS admitiu ter dissuadido oposicionistas a não reiterar notas contra Eduardo Cunha; “foco é criticar Dilma”

Roberto Freire: "Cunha está envolvido numa corrupção que é muito maior do que ele. E a corrupção é de Lula a Dilma” (Agência Brasil/Fabio Rodrigues Pozzebom)
Roberto Freire: "Cunha está envolvido numa corrupção que é muito maior do que ele. E a corrupção é de Lula a Dilma” (Agência Brasil/Fabio Rodrigues Pozzebom)
SÃO PAULO – As investigações sobre a conduta do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), estão muito mais adiantadas do que o possível processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Esta é a leitura do presidente do PPS, Roberto Freire. “Cunha está envolvido numa corrupção que é muito maior do que ele. E a corrupção é de Lula a Dilma”, lamentou em entrevista concedida a O Financista nesta semana.
Freire descarta a teoria de que, com o nome envolto em denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro, Cunha estaria perdendo a credibilidade, o que tiraria a legitimidade de sua decisão de acatar o pedido de impedimento da presidente.
“Enquanto ele não for condenado ou cassado, eu não posso tirar dele o direito de cidadania, assim como eu não posso tirar o direito da Dilma continuar presidente mesmo com tantos depoimentos de delação premiada sugerindo que ela esteja envolvida em vários escândalos de corrupção”, detalhou.
Na semana passada, o ministro do STF, Teori Zavascki, autorizou a abertura de um novo inquérito para investigar o presidente da Câmara. O pedido de investigação foi formulado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e assinado pelo procurador-geral em exercício, Eugênio Aragão, porque Janot estava nos Estados Unidos.
Além disso, deputados do PSOL e da Rede entregaram ao Conselho de Ética da Câmara uma representação contra Cunha, na qual pede a cassação do mandato do peemedebista por quebra de decoro parlamentar.
“As denúncias contra ele estão sendo encaminhadas, não vão ficar apenas nos jornais”, comemorou o presidente do PPS. “É hora de focar no mais importante para o país, que é o encaminhamento do processo de impeachment de Dilma”, completou.
Decisão não é exclusiva
Para estimular Cunha a aceitar a abertura do processo contra a presidente no Legislativo, oposicionistas estariam dispostos a não lançar novas notas contra o peemedebista. Um dos articuladores da estratégia é Roberto Freire.
Mesmo com a estratégia de evitar novos desgastes com Cunha, o deputado destacou que a decisão sobre o pedido do impeachment não pode ser monocrática.
“A decisão não pode ficar exclusivamente nas mãos de Cunha. É preciso que o Supremo [Tribunal Federal] defina também que o plenário da Casa tem competência para julgar”, esbravejou o líder do PPS.
A decisão do STF de suspender o rito de um eventual processo de impeachment contra a presidente foi bastante criticada por Freire. Na prática, a decisão impede que a oposição entre com recurso para levar a questão a plenário caso Cunha rejeite o pedido. “Queremos ter o direito de recorrer, caso Cunha decida indeferir o pedido.”
Questão de tempo
O líder do PPS ainda explicou que o cenário nunca esteve tão imprevisível quanto agora. A pressão da sociedade para que o Congresso apoiasse a abertura do processo de impeachment conseguiu mudar a correlação de forças.
“Hoje, há uma maioria na Casa que aceita a abertura do processo de impeachment. Não sei se já temos o número para aprovar, mas acho que, se abrirmos, a sociedade vai se mobilizar de tal forma que vai passar. Isso aconteceu com o (Fernando) Collor. Eu vivi isso”.
Desde 2013, quando as manifestações movimentaram o país durante o mês de junho, políticos recorrem ao povo para atribuir força às suas empreitadas. “O governo não governa mais e está preocupado em impedir a abertura do processo de impeachment. Dilma não sabe quando, mas sabe que, se começar, o desfecho é o pior possível”.
Dilma versus Collor
Desde que surgiram as primeiras movimentações para abrir um processo de impeachment contra a petista, não faltaram comparações entre a presidente e Fernando Collor de Mello, presidente que deixou o comando da presidência em 1992 após passar por um processo de impeachment.
“Collor praticou crimes de corrupção e de responsabilidade que talvez pudessem ser julgados em um juizado de pequenas causas. Seria o suficiente. No caso de Lula e Dilma, são governos que envergonham pelo volume de desvios neste período”, comparou.
De acordo com o presidente do PPS, Collor era um outsider e se isolou, enquanto Dilma permanece no centro porque, mesmo com o envolvimento do PT no processo de degradação e de corrupção, o partido tem raiz na sociedade.
“O setor empresarial e financeiro está sustentando Dilma. Na época do Collor, tão logo começaram as manifestações pró-impeachment, ele foi perdendo força rapidamente”, explicou Freire. "A crise é muito maior do que pensamos. É de atritos, palavras malditas por Dilma e respostas de Cunha. O Brasil caminha celeremente para a 'ingovernabilidade'. Quando os últimos tripulantes saltarem do navio de Dilma, ele vai afundar", concluiu.

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