- Folha de S. Paulo

Como notou agudamente Elio Gaspari em sua coluna de quarta (26), a mentalidade de bunker parece dominar os movimentos do pós-governo Dilma-2.

Só o sentimento de "barata-voa", para ficar no jargão brasiliense, explica uma semana que começou com um corte de ministérios sem objetivos e acabou na tentativa de ressurreição bizarra da CPMF.

O tributo surgiu como uma justiça social feita tortamente, e hoje é apenas a segunda parte da sentença. Poderia passar como uma solução emergencial e de consenso nacional que, contudo, só se daria com outra pessoa na cadeira da Presidência.

Esperar apoio congressual ou um abraço de afogados com governadores sugere algo como desespero. Ou alguém vê senadores dando alguma força à ideia de reforçar o caixa de adversários no poder, para ficar no exemplo mais simples? E onde estão agora os banqueiros que correram para proclamar apoio à estabilidade institucional de seus lucros?

É pantomima, assim como a Agenda Brasil ou a tosa na Esplanada anunciada por um ministro aparvalhado em sua imprecisão ("dez" implica algum plano, não?). São todas estopas jogadas na moribunda fogueira do governo.

O resto está dado. Tirar Michel Temer de vez do centro das decisões, ato tolo da semana passada sacramentado nesta, apenas confirma o ritual funerário em curso.

Como num enterro viking, o caixão do governo navega num barquinho à espera da flecha incendiária a atear fogo em tudo, embora o esforço por uma combustão espontânea esteja sendo redobrado pelo Planalto.

O risco, vide o PIB e as contas públicas, é todos nós perecermos juntos no "Götterdämerung", o apocalíptico crepúsculo dos poderosos de Wagner citado aqui mesmo em julho e que hoje terrivelmente parece mais do que uma metáfora. Para voltar ao bunker hitlerista, só nos faltam os bailes sob a artilharia soviética.

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