Luiz Carlos Azedo - O rei e a rainha


- Correio Brazilinse

• O ex-presidente Lula joga como quem pretende sacrificar a rainha para salvar a própria pele. É um tipo de manobra que exige mais do que a excelência do jogador, pressupõe uma situação na qual isso valha a pena

No jogo de xadrez, a peça mais valiosa depois do rei é a rainha. Mesmo assim, seu valor é relativo, pois pode ser compensador sacrificar a rainha se houver ganho nisso. Jogadores de xadrez costumam antecipar mentalmente as jogadas seguintes, alguns até 15, 20 lances, e sabem quando uma posição estratégica é robusta o suficiente para decidir o jogo antes mesmo de um xeque-mate. Por essa razão, entre os grandes mestres, é comum o derrotado não esperar o desenlace da partida para se retirar da disputa.

É comum ouvir os petistas compararem a presidente Dilma a um jogador de damas, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao de xadrez. A primeira se movimenta de maneira diagonal; o segundo, de forma muito mais complexa. Com os últimos acontecimentos da Operação Lava-Jato, o jogo político está mais para o xadrez, sem trocadilho.

Vamos supor, então, que Lula seja o rei. O ex-presidente da República, nas últimas semanas, joga como quem pretende sacrificar a rainha para salvar a própria pele. É um tipo de manobraa que exige mais do que a excelência do jogador, pressupõe uma situação no tabuleiro que valha realmente a pena.

Grosso modo, há quatro jogadas de sacrifício da rainha: para forçar um xeque-mate no adversário; capturar a rainha adversária numa troca vantajosa; limpar o caminho para um “peão passado” que substitua a rainha sacrificada; ou forçar uma sequência que ofereça real vantagem estratégica no tabuleiro. Aparentemente, nenhuma dessas situações se apresenta para que Lula possa entregar Dilma aos adversários e se safar de um xeque-mate.

Vejamos: o Palácio do Planalto foi pego completamente de surpresa pela aceitação da “delação premiada” do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao contrário do que se imaginava, a denúncia chegou à presidente Dilma, acusada de receber R$ 7,5 milhões provenientes do esquema de propina da Petrobras, e envolveu os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e da Comunicação Social, Edinho Silva, seu tesoureiro de campanha, além de ex-ministros, parlamentares da base aliada e até da oposição.

O sacrifício
Dilma viajou ontem para o encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Joaquim Levy seguiu em voo comercial, contra recomendação médica devido à embolia pulmonar que o levou a ser hospitalizado de véspera, sinal de que já não dá conta das pressões que sofre. A situação da economia é desastrosa, o ajuste fiscal está sendo sabotado pela própria base e cresce no PMDB a tese de afastamento do PT, cujo desgaste com a Lava-Jato só aumenta.

É nesse cenário que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também foi citado na delação como beneficiário de R$ 2,5 milhões do esquema, desembarcará amanhã em Brasília. Vem se reunir com senadores e deputados petistas. Lula faz críticas à Dilma, ao governo e ao PT de forma sistemática, às vezes para que se tornem públicas. Aparentemente, desistiu de mandar na presidente, que chama de cabeça dura. Ultimamente, convoca os ministros petistas para reuniões no Instituto Lula e conversa com os aliados à revelia da presidente da República.

O objetivo de Lula é fazer o PT retomar a iniciativa no Congresso, onde a legenda está cada vez mais isolada. Para Lula, as bancadas petistas estão à matroca, desde a convocação de seu fiel escudeiro Paulo Okamotto pela CPI da Petrobras. As reações de Lula são de quem está antevendo um xeque-mate, para voltar à linguagem do xadrez.

Além do petardo disparado por Ricardo Pessoa contra o governo Dilma e ele próprio, Lula sabe que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está prestes a fazer a denúncia contra os políticos citados nas “delações premiadas” do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa e do doleiro Alberto Youssef. Candidato à reeleição, Janot tem duas opções: apresentar a denúncia amanhã ou terça-feira, antes do recesso do Judiciário, ou somente em agosto.

Caso os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sejam denunciados, como tudo leva a crer, dificilmente ambos deixarão de atribuir o fato a uma articulação do próprio Palácio do Planalto para empatar o jogo e bloquear a possibilidade de um impeachment da presidente da República. Seria uma tentativa de virada de mesa, derrubando o tabuleiro. Esse recrudescimento da crise que abala a República pode resultar no sacrifício da rainha. Qual será a jogada de Lula para evitar o xeque-mate?

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