Em política, não se dá ponto sem nó, não se recusa buchada de bode e não se vai a uma festa só por ir. Logo, a presença do vice-presidente Michel Temer no aniversário de Marta Suplicy foi um gesto cheio de significados, deveras instigante.

Temer - que é do PMDB, não vamos esquecer - tomou duas precauções interessantíssimas. Avisou de véspera que o apoio do seu partido à reeleição do prefeito petista Fernando Haddad pode ser, mas pode não ser. E, além de sua bela mulher, Marcela, ele também levou para a festa de Marta o ex-candidato peemedebista à prefeitura Gabriel Chalita, como quem dissesse: esse não será empecilho à sua candidatura.

Soma daqui, diminui dali, o resultado é que o vice-presidente da República prestigiou a quase ex-petista Marta - que anda às turras com a presidente Dilma Rousseff, o governo e o PT - numa festa em que não se ouviu um só elogio ao PT e todas as apostas foram a de que Dilma terá tempos cada vez piores pela frente. Parecia festa da oposição. Talvez tenha sido mesmo.

Então, o que Temer foi fazer lá? Que recado ele quis mandar com o gesto? Que é amigo de Marta desde criancinha, que adora docinhos e champanhe ou... que o PMDB está querendo cada vez mais distância dos petistas, não se mete em briga da família PT, tenta se descolar da crise e parte para uma linha, no mínimo, de independência? Se a casa cair, que caia na cabeça só do PT.

Como contraponto à presença de Temer, só havia um petista na festa de Marta, que milita (ou militou) apaixonadamente no partido durante 35 anos. E esse petista era o senador Delcídio Amaral, que, se não botou a boca no trombone como Marta, também não está nada afinado com o PT. Um encontro, portanto, de insatisfeitos. Vá-se saber se Delcídio também não tem lá seus planos de fuga e quis mandar o recado. Político não vai à festa só por ir...

Marta não tem mais essa dúvida e já passou da fase de mandar recados. Está com um pé fora do PT e outro dentro do PSB, sem retorno. Ela é uma liderança em busca de um partido. O PSB, depois da morte de Eduardo Campos, é um partido em busca de uma liderança. Logo, é a fome com a vontade de comer.

Marta explicava que não convidou Lula porque não faria sentido, já que comunicou a ele que está fora e quais serão seus futuros movimentos. Mas ela quer "dar passinho por passinho", ou seja, uma coisa de cada vez. Deve sair do PT em abril, esperar um mês, um mês e pouco, e então se filiar formalmente ao PSB em junho, antes do recesso do Congresso.

Até lá, vai costurando apoios e evitando que as negativas para integrar outras siglas arranhem suas possibilidades de coligação nas eleições municipais, tanto contra o petista Haddad quanto contra o candidato tucano, seja quem for. Aliás, foram à festa representantes do PTB, do PPS, do PDT, do PP... Sem falar, claro, do PSB e do PMDB.

E, se não havia nenhum cacique tucano, Fernando Henrique Cardoso fez questão de lhe mandar um abraço por um amigo comum. Afinal, nunca se pode descartar uma aliança do PSB de Marta com o PSDB de FHC num eventual 2.º turno contra o PT nas eleições de 2016 em São Paulo.

Aos 70 anos, portanto, Marta não fez só uma festa, fez uma demonstração claríssima de que ela sabe o que quer e para onde está indo. Mostrou o tabuleiro e qual será o seu jogo. Está linda, feliz, sacudindo a poeira, dando a volta por cima e cheia de planos. Seu grande sonho, ou sonho mais imediato, é voltar à prefeitura, mas o céu é o limite.

Se fosse só ela, já seria muito, mas o passo de Marta para fora do PT pode ser o primeiro de muitos num momento em que o Titanic faz água para todo lado e Dilma vai buscar a bóia com... o MST. Como já disse a própria Marta ao Estado, "ou o PT muda, ou acaba".

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