Isso é um desserviço aos opositores do PT, a ponto de parecer até infiltração do partido nas manifestações
Algumas premissas devem ficar claras antes de qualquer debate sobre política em nosso país na atualidade. Em primeiro lugar, vamos à contramão do que deveríamos, flertando com um modelo autoritário, incompetente e pouco republicano. Em segundo lugar, há a intenção de boa parte do PT de realmente rasgar de vez nossas instituições e caminhar na direção do chavismo.
Aceitas tais premissas, vem a questão: como reagir a isso? Uma minoria, porém barulhenta, acredita que já não temos saída dentro das instituições democráticas e pede a intervenção militar. Conhecendo a esquerda, claro que esses poucos que desejam a volta dos militares ao poder seriam usados como a regra, e não a exceção, para representar a “direita golpista”.
Como escreveu Roberto Pompeu de Toledo na Veja desta semana, esses golpistas fazem o jogo dos radicais de esquerda, do próprio governo que pretende avançar rumo ao bolivarianismo. É a pior forma que existe de fazer oposição ao PT, pois acaba justificando medidas autoritárias sonhadas pelo partido.
São poucas pessoas, e vejo em meu próprio blog sua atuação. Mas dão um tiro no pé e prejudicam todos os opositores do bolivarianismo. Afinal, ainda não somos a Venezuela e temos instituições republicanos funcionando. Vide o Ministério Público e a Polícia Federal na Operação Lava-Jato. Fortalecê-las, garantir sua independência, esta deveria ser a bandeira de todos que pretendem evitar um destino trágico como aquele que destroçou a Venezuela e ameaça destruir a Argentina.
Em artigo publicado hoje no GLOBO, o cientista político Nelson Paes Leme segue na mesma linha, primeiro constatando o óbvio necessário, que estamos em direção ao atraso, para depois condenar o método de combate pregado por alguns, que clamam pelo retorno dos militares. Diz ele:
O que se vê, hoje, no entanto, no Brasil dilmático do lulopetismo é uma guinada perigosamente sectária e absurda em direção ao retrocesso e ao atraso. Estamos na total contramão da História. Talvez por isso o governo do PT esteja apresentando índices tão pífios na economia continental e mundial e enveredando perigosamente, na política, pelos descaminhos sem volta do castrismo e do bolivarianismo jurássicos. A visão dos estrategistas internos e externos desse desgoverno é a mais primitiva possível: eleger os EUA como inimigo das massas trabalhadoras, fortalecendo alianças continentais “anti-ianques” como tentativa de estabelecer uma delirante correlação de forças; garrotear a “imprensa burguesa” por via de mecanismos que remontam ao medievo das ditaduras mais sangrentas, implantando “um jornal de massas” e o “controle social da mídia”; justificar a roubalheira generalizada no seio do governo e das estatais como “meio inerente ao ‘sistema’ para atingir o fim do ‘socialismo’”; “instituir os ‘conselhos populares’” para acabar de desmoralizar de vez a representação democrática e o Legislativo; tentar bolivarianizar o Judiciário, como denunciou o ministro Gilmar Mendes à “Folha de S.Paulo”, na edição histórica de 03/11/14.
Ou seja, o autor reconhece claramente, sem rodeios, todo o atraso representado pelo PT no poder, a enorme ameaça chavista que isso significa. Mas logo depois acrescenta que outro dado do retrocesso é a reação irracional dos golpistas que pedem ajuda aos militares.
Tirar o PT é imperativo para salvar nossas instituições democráticas, mas é preciso fazê-lo justamente dentro de tais instituições. Pelo voto. Pelo convencimento. Dentro da democracia. E para tanto é preciso arregaçar as mangas e trabalhar duro, especialmente a oposição sonolenta:
Para se tirar o PT do poder pelo voto, é necessário explicitar enfaticamente um sólido programa alternativo de governo e debatê-lo permanente e abertamente com a sociedade em todos os fóruns imagináveis. A começar por incisivos e consistentes discursos no Parlamento da República. Não se viu isso nos 12 anos de lulopetismo até agora. Quem sabe acontecerá com a subida de Aécio à tribuna do Senado. A esperança é a última que morre. E quando morre, já se conhece o final.
A esperança deve ser alimentada por todos aqueles que não desistiram do Brasil ainda. E o melhor jeito de colocar em prática isso é cada um fazer sua parte, tentar esclarecer os mais leigos, colaborar com institutos que divulgam ideias alternativas ao modelo socialista, assinar revistas e jornais independentes que ousam falar a verdade, participar da criação de algum partido novo com bandeiras opostas ao bolivarianismo petista, pressionar os políticos de oposição com mensagens.
Enfim, exercer seu papel de cidadão indignado que respeita nossa democracia e deseja justamente salvá-la, não afundá-la de vez.
Rodrigo Constantino

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