Perdas inegáveis - DORA KRAMER


O ESTADÃO - 30/09


A menos que a presidente Dilma Rousseff saia em disparada nas últimas pesquisas antes do primeiro turno, esta agora terá sido a eleição em que o candidato com o maior índice de intenções de voto apresenta a menor vantagem em relação ao principal adversário.

O instituto Datafolha levantou os dados dos desempenhos dos candidatos de 1994 para cá, comparando as pesquisas feitas a uma semana do dia da primeira votação. Fernando Henrique Cardoso, há 20 anos, tinha 47% contra 23% de Luiz Inácio da Silva, mais que o dobro; venceu na primeira rodada por 54% a 27%.

Quatro anos depois, a pesquisa registrava proporção semelhante: 46% a 25%; FH ganhou no primeiro turno por 53% a 31%. A partir de 2002 as disputas ficariam mais difíceis e todas seriam decididas no segundo turno. Naquele ano, Lula aparecia na pesquisa com 45% contra 21% de José Serra, 24 pontos de diferença; na simulação de segundo turno, a distância era de 22 pontos (57% a 35%). O resultado, Lula 61% e Serra 38%.

Em 2006, as pesquisas registravam uma redução da vantagem no primeiro turno com 49% para Lula e 31% para Geraldo Alckmin, 18 pontos. A simulação do segundo apontava a recuperação do petista (54% a 39%, diferença de 15 pontos) confirmada com folga pelo resultado das urnas, 60% Lula e 38% Alckmin.

Na eleição seguinte, Lula no auge da popularidade, governo com aprovação altíssima, a candidata Dilma Rousseff aparecia nas pesquisas uma semana antes da eleição com 46% contra 28% de José Serra; 18 pontos de diferença. Na simulação da segunda etapa a distância entre os dois era de 13 pontos (52% a 39%). Dilma ganhou por 12:56% a 44%.

As pesquisas desta semana é que vão permitir a conferência precisa da situação atual comparativamente aos dados acima. Mas, considerando os números mais recentes a margem é consideravelmente mais estreita: no primeiro turno Dilma tem vantagem de 13 pontos em relação a Marina (40% a 27%) e no segundo, inéditos 4 (47% a 43%).

A menos que as pesquisas finais que começam a sair hoje mostrem que o Brasil resolveu cair de amores pela presidente Dilma Rousseff, os números mostram como nunca foi tão estreita a margem de manobra para o governo do PT.

Está aí em parte explicado o recurso aos ataques ferozes à segunda colocada, arma em geral evitada por candidatos em situação razoavelmente confortável nas disputas, dado o alto risco de haver uma espécie de efeito bumerangue. Não havia outro jeito. Ou a campanha abatia Marina Silva ou entregava de bandeja a Presidência.

Mesmo com a perda já significativa de pontos da candidata do PSB, principalmente nos maiores colégios eleitorais, o ambiente no PT está longe de ser de serenidade e bom humor. No comitê central, em Brasília, a atmosfera está mais para manifestações de junho que para Copa do Mundo.

Na verdade o clima é tenso em todas as campanhas. O PSB teme o derretimento de última hora e no campo dos tucanos o inconformismo é com a confirmação da eliminação precoce pela primeira vez em 20 anos.

De um lado governar com muito menos, de outros fazer oposição com menos ainda.

Corpo mole. Compreende-se que o PSDB tenha investido pesado no Sudeste a fim de tentar tirar nos maiores colégios eleitorais a diferença da vantagem que o PT tem o Nordeste. O que não é compreensível é o desempenho de nanico que o partido apresenta na região.

Em redutos de aliados fortes. No Ceará, onde Tasso Jereissati será eleito, o senador Aécio Neves tem 7% na última pesquisa do Datafolha. No Rio Grande do Norte, terra de Agripino Maia, coordenador da campanha, o Ibope registra 11% para Aécio. Mesmo índice na Paraíba, onde o senador tucano Cássio Cunha Lima está em primeiro lugar para governador.

Os mesmos 11% o candidato do PSDB tem na Bahia, a despeito de o candidato ao governo Paulo Souto (DEM), seu aliado, estar cotado para vencer no primeiro turno.

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