Protestos

Venezuela: Centro de emergências vê entrada de pacientes disparar após o início dos protestos

Diretor-médico do centro afirma que polícia está usando armas de dissuasão como armas de ataque

Diego Braga Norte, de Caracas
Jorge Luís Hernandez, diretor-médico do Centro de Emergências de Chacao
Jorge Luís Hernandez, diretor-médico do Centro de Emergências de Chacao (Diego Braga Norte/VEJA.COM)
O maior centro de atendimento às emergências da área onde se concentram asmanifestações em Caracas já atendeu 121 pessoas entre os dias 12, data do início dos protestos, e o dia 23, totalizando uma média de onze registros diários. Localizado em Chacao, município conurbado com a capital venezuelana e que faz parte do Distrito Federal, o Centro de Emergências médicas viu seu trabalho aumentar por causa da grande afluência das vítimas das manifestações. Segundo o médico Jorge Luís Hernandez, diretor do centro, a média de atendimentos na região raramente supera dois pacientes por dia, e são quase sempre casos rotineiros, como pressão alta e acidentes de trânsito.
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“Somente no dia 12, atendemos quatro pessoas feridas a bala. Um deles, já chegou aqui morto”, disse Hernandez.  No último sábado, data do maior protesto já feito, foram 25 atendimentos, sendo catorze feridos com balas de plástico, nove com contusões e fraturas (vítimas de espancamento) e dois com intoxicação após inalar grandes quantidades de gás lacrimogênio. “O mais preocupante é que as forças policiais estão usando armas de dispersão – como bombas e balas de plástico – como armas de ataque”. O médico afirmou que sua equipe de paramédicos atendeu um rapaz com a perna dilacerada após ter sido atingido por balas de plástico a uma distância inferior a 1 metro. “Nós contamos com cinco ambulâncias e quatro motos para os atendimentos emergenciais. Mas nos dias em que os protestos são grandes, nossas viaturas não dão conta”, lamentou Hernandez.
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Manifestantes contra o governo venezuelano na Praça Altamira, em Caracas
Manifestantes contra o governo venezuelano na Praça Altamira, em Caracas - Reuters

 
Alguns armamentos usados pela polícia venezuelana durante as manifestações utilizam munição plástica que se fragmenta e se espalha. Sua ação é semelhante a das antigas espingardas de sal – que machucam, mas não são letais. Porém, quando disparadas à queima roupa, seus resultados podem ser trágicos. Geraldine Moreno Orozco, de 23 anos, morreu no último sábado em Valência, cidade a 170 quilômetros ao oeste de Caracas, após ser atingida no rosto por uma dessas armas. O tiro, a pouca distância, lhe desfigurou a face e os fragmentos plásticos atravessaram seu crânio.
 
Outro caso de mau uso de armas de dissuasão relatado pelo médico aconteceu com um jovem que foi atingido por uma bomba de gás lacrimogênio na face. “Essas bombas são umas latas – parecidas com latas de molho de tomate – disparadas de uma escopeta, que deveriam ser lançadas ao chão. O jovem foi atingido à queima roupa, teve traumatismo craniano e perdeu a visão do olho esquerdo”, contou o médico.
 
O número de vítimas na região mais revoltosa de Caracas pode ainda ser bem maior, pois muitos dos feridos vão diretamente para três grandes clínicas particulares de Chacao e ficam fora das estatísticas compiladas pelo Centro Médico. Dos 121 atendimentos feitos pela equipe de paramédicos comandada por Hernandez, 59 foram casos de contusões ou fraturas; 29 feridos por munição plástica; 22 por intoxicação de gases; quatro com ferimentos provocados por arma de fogo; e dois por queimaduras; e dois com traumatismo toracoabdominal e hemorragia interna (geralmente causados por espancamentos feitos com cassetes). Dos casos considerados normais, o centro registrou no período das manifestações apenas três crises de hipertensão. 


Venezuela: a herança maldita de Chávez 

Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela em fevereiro de 1999 e, ao longo de catorze anos, criou gigantescos desequilíbrios econômicos, acabou com a independência das instituições e deixou um legado problemático para seu sucessor, Nicolás Maduro. Confira:

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Criminalidade alta

A criminalidade disparou na Venezuela ao longo dos 14 anos de governo Chávez. Em 1999, quando se elegeu, o país registrava cerca de 6 000 mortes por ano, a uma taxa de 25 por 100 000 habitantes, maior que a do Iraque e semelhante à do Brasil, que já é considerada elevada. Segundo a ONG Observatório Venezuelano de Violência (OVV), em 2011, foram cometidos 20 000 assassinatos do país, em um índice de 67 homicídios por 100.000 habitantes. Em 2013, foram mortas na Venezuela quase 25 000 pessoas, cinco vezes mais do que em 1998, quando Hugo Chávez foi eleito. 
Apesar de rica em petróleo, a Venezuela é o país com a terceira maior taxa de homicídios do mundo, atrás de Honduras e El Salvador. Entre as razões para tanto está a baixa proporção de criminosos presos. Enquanto no Brasil a média é de 274 presos para cada 100 000 habitantes, na Venezuela o índice está em 161. De acordo com uma ONG que promove os direitos humanos na Venezuela, a Cofavic, em 96% dos casos de homicídio os responsáveis pelos crimes não são condenados.

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