CARLOS ALBERTO SARDENBERG: 'MAIOR DESÂNIMO'

Maior desânimo - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 17/10

A queixa se iguala: ‘Estamos trabalhando para os caras’. Mesmo quando não é corrupta, a burocracia tende a se tornar um fim em si mesma


Começou com um ouvinte do programa CBN Brasil, que se apresentou como pequeno empresário da indústria e fez uma espécie de consulta: que tal se ele vendesse a fábrica, o que lhe daria uns R$ 3 milhões, e passasse a viver de aplicações financeiras, hoje em fundos imobiliários?

Por que faria isso se, como ele mesmo disse, a fábrica ia bem e dava dinheiro?

Por cansaço e desânimo, respondeu. Contou então que, como pequeno empresário, precisa estar em cima de tudo, da produção à contabilidade, das vendas aos fornecedores. E que ele não aguentava mais a trabalheira, não na produção de suas peças, mas na burocracia em volta, na dificuldade da gestão.

Colocamos a história no ar, na última terça-feira, Mara Luquet comentou, e imediatamente começamos a receber e-mails com casos parecidos. Alguns deles reclamavam da queda de atividade em seus setores — como um rapaz produtor de parafusos e outras peças para portas de vidro, com vendas em queda por causa do declínio da construção civil.

Mas mesmo esse dizia que ainda estava no lucro. Na verdade, como os demais, também estava mais cansado da trabalheira, digamos, institucional: lidar com as leis e regulamentos, suas autoridades, os tribunais, os fiscais, o pessoal do Fisco. É o maior desânimo, explicava um fabricante de roupas, também jovem, empreendedor: "Parece que a gente não trabalha no negócio, trabalha para os outros que ficam ali... atrapallhando".

Parecia a esses empreendedores, da economia real, que a vida de investidor financeiro, rentista, era mais fácil e mais segura.

Estava com isso na pauta quando escuto, pela tevê, o comentário de um dos chefes do crime em São Paulo, grampeado numa conversa com um colega: "Tô no maior desânimo, irmão, só trabalho para os caras; neste ano, já paguei uns 700 contos pra eles".

Sim, são situações bem diferentes. Não estamos nem de longe comparando empreendedores honestos com empresários do crime. Mas reparem: nos dois casos tem uma falha do Estado e das instituições. No primeiro, a burocracia (no sentido amplo) atrapalha uma atividade legal e produtiva, que deveria ser facilitada; no segundo, atrapalha uma atividade ilegal que deveria ser coibida, mas é preservada exatamente para dar lucro a agentes do Estado.

A queixa se iguala: "Estamos trabalhando poara os caras". Mesmo quando não é corrupta, a burocracia tende a se tornar um fim em si mesma. Quando se chega a esse ponto, ela não existe mais para regular e controlar a atividade legal ou coibir a ilegal, mas a atividade privada, qualquer que seja, só existe para dar sentido (e vantagens) à burocracia e seus agentes.

A que ponto chegamos: o fabricante de parafusos e o distribuidor de cocaína no maior desânimo...

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O pré-sal e os índios

Era um debate com investidores financeiros e empresários, inclusive do agronegócio. Lá pelas tantas, Marina Silva disse: "Meu orgulho não é o pré-sal, mas as 38 comunidades (indígenas) que até hoje não têm contato (com os brancos)".

Qual o sentido disso?

Ela já havia dito que considerava o petróleo uma vantagem importante — a ser explorada com responsabilidade ambiental e uso consciente dos lucros para financiar o futuro, a educação por exemplo. Mas seu entusiasmo apareceu mesmo quando falou da energia solar e da eólica, cujo desenvolvimento considera crucial para que o país não seja dependente de uma só fonte, mesmo que seja a hidrelétrica.

O objetivo, afirmou, tem de ser a economia de baixo carbono.

Bom, petróleo é carbono puro. Hidrelétrica não é, mas aqui entram os índios e a floresta. Entram também no agronegócio, que era o tema de Marina quando falou, entusiasmada, das 38 comunidades indígenas ainda preservadas do contato com a assim chamada civilização ocidental. Na opinião da Marina, essas comunidades têm que ser preservadas como estão, na pura vida original, sendo o papel do Estado fazer essa proteção.

Eis como a frase lá de cima começa a ganhar sentido. Há uma agenda desenvolvimentista no Brasil, que inclui o pré-sal, a construção de uma pesada infraestrutura e um agronegócio que é um campeão mundial. Tudo com riscos ambientais. E um outro risco, daí derivado, o de bloqueio ao desenvolvimento por excesso de zelo ambiental.

Eduardo Campos é desenvolvimentista. Penambuco é um canteiro de obras, inclusive de alto carbono. Marina vem pelo outro lado. Nada pode prejudicar a vida das 38 comunidades, nem que seja obra crucial para o desenvolvomento. Vai ser aí uma difícil combinação programática e pragmática.

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