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Muito além do exemplo de humildade, o papa deixou um desafio aos novos Franciscos

(*) Ucho Haddad –
Pouco mais de três décadas depois, um líder religioso fez com que parasse para ouvi-lo. Conhecendo razoavelmente as entranhas do Vaticano, o que me rendeu diversas ameaças ao longo desse período, o argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, representa um sinal de esperança à Santa Sé e aos seguidores do Catolicismo. Foram as palavras desse jesuíta que me fizeram pensar que o crime organizado, que há décadas frequenta as coxias da Igreja Católica, terá pela frente dias extremamente difíceis. O que não significa o seu fim, porque os criminosos de batina atuam de maneira sorrateira e quase silenciosa quando agem foram de seus guetos.
Que Francisco está disposto a uma profunda e generalizada faxina no Vaticano não tenho dúvidas, mas espero que seu objetivo seja de fato alcançado, pois não há como mesclar fé com banditismo generalizado. A grande questão é como eliminar da órbita vaticana as muitas organizações – supostamente religiosas ou ligadas à Igreja – que atuam como verdadeiras máfias. Nesse missal do crime há transgressões de todos os naipes. Da lavagem de dinheiro à pedofilia, de homicídios com detalhes cinematográficos a regalias nababescas com a chancela da fé.
Agindo no Vaticano com espantosa liberdade desde os tempos de Paulo VI, os criminosos da Praça São Pedro terão de se reinventar caso queiram sair de cena sem que o flagrante dê o ar da graça. Afinal, a história mostra que todo jesuíta é imbuído de um espírito combativo sem precedentes no mundo da fé. E Jorge Mario Bergoglio não é diferente. No vácuo dessa eventual escapada, eliminados por seus parceiros de crime serão muitos dos saltimbancos que usaram – e ainda usam – a religiosidade como escudo para a prática delituosa.
A passagem do papa Francisco pelo Brasil foi marcada por simbolismos, os quais resgataram muitos dos pilares da existência humana, mas os que com ele se encantaram não podem se deixar anestesiar pelo espetáculo papal de humildade. Francisco é um exemplo a ser seguido, mas é preciso estar atento ao cotidiano da paróquia mais próxima. Quando o crime organizado se instalou no Vaticano, o plano era fazer da atuação delitiva um movimento piramidal, descendente e capilar. Assim como acontece em qualquer Estado, cujos agentes se permitem à corrupção e a outros quetais.
Bergoglio certamente promoverá uma revolução na Igreja Católica, mas é preciso relembrar seguidamente o mais reticente dos seus pedidos. “Rezem por mim”. Não foi por acaso que o papa clamou pela oração dos fiéis. Acostumado com os bastidores da religião, Jorge Bergoglio sabe muito bem o que lhe espera nos intramuros da Santa Sé. Somente a união dos católicos é que dará ao papa uma espécie de blindagem contra os criminosos que com as batinas da desfaçatez desfilam como se impolutos fossem.
Se por um lado torço pelo papa Francisco, por outro temo por Jorge Bergoglio. Restabelecer a ordem e a moral no Vaticano não será tarefa fácil. Exigirá do papa raciocínio e paciência de um enxadrista, pois a estrutura do crime organizado é de impressionar até mesmo os marginais mais experientes. Para compreender esses escaninhos, basta voltar no tempo e resgatar detalhes da meteórica passagem de Albino Luciani, o papa João Paulo I, pelo Vaticano. Seu papado de 33 dias foi marcado por ações sórdidas de representantes do crime, que atuando com desenvoltura eliminaram o primeiro religioso que se dispôs a patrocinar uma ampla assepsia na Santa Sé. Ao contrário do que explicita o laudo oficial, Luciani morreu envenenado após tomar um chá com cianureto, servido por assessor próximo. A mesma estratégia foi utilizada para eliminar na prisão um mafioso conhecido que integrava o bando da fé.
O ousado e necessário projeto do papa Francisco, que já está em marcha, pode ser comparado à extirpação de um tumor que se instalou, de forma quase consentida, na aorta. A dúvida é como fazer essa cirurgia sem que o paciente morra em decorrência de uma hemorragia. Para ser mais simplista, algo como tirar repentinamente a tigela repleta de ração diante de um pitbull faminto. O risco é enorme, mas a determinação e a ousadia devem ser ainda maiores. O que Bergoglio se dispôs em relação à Igreja é o que qualquer cidadão brasileiro deve fazer com o Estado. Eliminar os que fazem do mandato eletivo a senha para o banditismo político.
Em seus discursos, Francisco abordou diversas vezes o tema corrupção. Essa sua reticência discursiva, que de chofre se espalhou entre os brasileiros, não pode ser esquecida dentro de alguns dias. É preciso determinação no combate aos criminosos que têm o País em suas mãos, como se os destinos do povo fosse um baralho cujas cartas rotineiramente são distribuídas aos profissionais do blefe. O papa retornou a Roma, mas em cada brasileiro deixou um Francisco. A missão de cada um desses milhões de Franciscos é, na esteira da humildade, promover as mudanças necessárias, sempre empunhando a bandeira da verdade e da obstinação.
Que as palavras do papa Francisco sejam a oração diuturna de todos os brasileiros, católicos ou não, pois a quadrilha política que se apoderou do Brasil não pode continuar disseminando desmandos, como se o povo fosse uma vasta reunião de ovelhas passivas e ignaras. E nesse pastoreio em busca da moralidade do Estado, cada um é o cão que protege o rebanho das imperdoáveis raposas de sempre.
A vinda de Francisco ao Brasil não foi por acaso, mas, sim, por uma necessidade que ultrapassou as fronteiras da compreensão. Oremos, pois, sem jamais abandonar a luta!
(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e cometarista político, cronista esportivo, escritor e poeta.

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