CHAVISMO SE ESFARELA DE PODRE - REINALDO AZEVEDO



21/05/2013
 às 6:34

Chavistas já estão em pé de guerra. O bom é que o vencedor será fatalmente o derrotado seguinte. Podre, o regime começa a se esfarelar

Não deu tempo de o tirano Hugo Chávez ser pendurado pelos pés em praça pública, como observei aqui no sábado, mas outros poderão ainda representar o papel de Mussolini tropical na Venezuela. Os candidatos mais cotados são Nicolás Maduro, o presidente duas vezes ilegítimo (porque assumiu na vacância de Chávez contra a Constituição e porque sua eleição foi fraudulenta), e Diosdado Cabello, que preside a Assembleia Nacional, o Parlamento unicameral do país. São hoje os dois homens fortes do regime. E não! Eles não se entendem. Numa gravação tornada pública pela oposição, um jornalista amigo do regime — um desses vagabundos que prosperam em regimes dessa natureza; no Brasil, há vários candidatos — denuncia um suposto complô para derrubar Maduro. E o líder seria justamente Cabello. Já chego lá, para tratar, inclusive, das circunstâncias surrealistas da conversa. Antes, é preciso lembrar algumas coisinhas.
Regime se esfarelando
No dia 7 de janeiro deste ano, escrevi aqui um texto sobre o impasse na Venezuela. Por quê? Chávez, que agonizava em Cuba, teria de tomar posse no dia 10 daquele mês. Estava na cara que não conseguiria. Segundo a Constituição, se isso não acontecesse, uma nova eleição teria de ser marcada. Jogaram o texto no lixo. O Tribunal Supremo de Justiça (o STF de lá), coalhado de bolivarianos, decidiu adiar a posse. Escrevi, então, nesse post:
“Tudo bem pensado, há uma boa notícia nesse imbróglio: os chavistas tentam adiar ao máximo as eleições não porque estejam unidos, mas porque estão divididos. Não é da oposição que têm medo, mas de si mesmos. Não é só o tirano que agoniza, mas também o movimento que ele inspirou. É por isso que a ditadura tenta dar um golpe em si mesma.”
O golpe em si mesmo, bem entendido, era o adiamento da posse. Depois houve outro, com a presidência interina conferida a Maduro e, finalmente, a eleição fraudada. A procrastinação tinha um único objetivo: apaziguar Cabello, que se negava a reconhecer a liderança do ungido por Chávez. Muito bem. Leiam agora trechos de texto publicano nesta segunda na VEJA.com. Volto em seguida.
*
A oposição venezuelana divulgou nesta segunda-feira um registro de áudio que revela uma conspiração dentro do governo contra o presidente Nicolás Maduro. O conluio seria coordenado pelo chefe da Assembleia Nacional e vice-presidente do partido governista, o PSUV, Diosdado Cabello. A gravação registra a conversa do apresentador de TV Mario Silva com Aramis Palacios, um dos chefes do G2, o serviço secreto cubano, e seria destinada ao ditador cubano, Raúl Castro.
No áudio, Silva explica que Cabello, um ex-tenente que participou ao lado do coronel Hugo Chávez do fracassado golpe de Estado de 1992, controla vários órgãos de segurança, entre eles o Serviço Bolivariano de Inteligência. Acrescenta que o que “interessa a ele são o dinheiro e o poder”. “A única forma de deter Diosdado é mostrar que ele é um corrupto e que exista uma prova confiável de que o comandante [Chávez] sabia disso”, adverte Silva.
O jornalista acrescenta que Maduro está preso em uma “armadilha” e corre o risco de perder o controle das Forças Armadas para Cabello, o que poderia levar a um golpe de Estado. “Têm que se sentar com Maduro e dizer a ele as coisas. Quase disse a Maduro (que) há uma conspiração, mas não sei qual vai ser a sua reação, pode ser contraproducente”. O apresentador também alertou sobre divisões entre militares e sobre a desconfiança da primeira-dama, Cilia Flores, em relação ao ministro da Defesa, Diego Molero, por acreditar que ele pretende dar o golpe.
Silva também acusa o presidente da Assembleia Nacional de corrupção e de lavagem de dinheiro por meio de “empresas de fachada”. “Há ministros aqui que não sabem sequer o que fazer. E o mais provável é que estejam roubando, Palacios, porque acham que isto vai desmoronar”.
(…)
Voltei
Mario Silva não passa de um estafeta asqueroso do regime. Embora o Brasil seja uma democracia, existem muitos tipos assim por aqui — tão bem pagos quanto seu congênere bolivariano… É um pulha, mas conhece o governo por dentro. Não por acaso, ele discute o complô, imaginem vocês!, com um agente cubano. Tornada pública a fita, ele sabe que está em maus lençóis. Cabello é um tipo perigoso, e Maduro não vai segurar a sua onda. Restou ao, digamos, jornalista afirmar que a fita é uma montagem e que tudo não passa de um complô da CIA e do Mossad, o serviço secreto israelense. Os bolivarianos são fanaticamente antissemitas, é bom não esquecer. O país de referência na cúpula do governo venezuelano é o… Irã!
Narcotráfico
A suspeita mais grave contra Cabello nem é a de enriquecimento ilícito. Há coisa muito mais grave: envolvimento com o narcotráfico. Era o candidato natural à sucessão de Chávez, mas o coronel, contam-me venezuelanos que conhecem o regime, o considerava uma ameaça. O Beiçola de Caracas chegou a pensar em se livrar do antigo “companheiro” golpista, mas descobriu que, nesse caso, quem corria o risco de cair era ele próprio. Diosdado tem o apoio de parte significativa da ala militar bolivariana, que também se beneficia das práticas mafiosas do governo.
Diosdado exigiu — e Maduro cedeu — áreas significativas do governo. Era o preço do apoio. E ele demonstra fidelidade à sua maneira. No dia 30 do mês passado,  no comando da Assembleia, viu os deputados bolivarianos socando a cara dos opositores e não moveu uma palha. Ao contrário: ele estimulou a pancadaria. Além de ser o chefe do serviço de Inteligência do regime, é também o homem forte das milícias armadas. O mais grave, no entanto, é a suspeita de envolvimento com o narcotráfico.
O juiz Eladio Ramón Aponte Aponte, ex-presidente do Tribunal Supremo de Justiça, era o braço de Chávez no Judiciário. Ainda há uma página sobre ele na Internet, do tempo em que era uma estrela da Justiça.
Pois bem. O homem fugiu do país no fim de março e se tornou um delator protegido pelo DEA, a agência antidrogas dos EUA. Ele admitiu ter prestado favores a uma rede de narcotraficantes da América do Sul a pedido do governo Chávez. E listou, então, os chavistas da cúpula que lucravam com o tráfico de drogas: o ministro da Defesa, general de brigada Henry de Jesús Rangel Silva; o vice-ministro de Segurança Interna e diretor do Escritório Nacional Antidrogas, Néstor Luis Reverol; o comandante da IV Divisão Blindada do Exército, Clíver Alcalá; o ex-diretor da seção de Inteligência Militar Hugo Carvajal e… o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello!!!
Olhem Cabello ali. Segundo a Constituição, ele é que deveria ter assumido a Presidência interina do país quando ficou claro que Chávez não tomaria posse no dia 10 de janeiro. Mas parte da cúpula bolivariana, especialmente aquela mais próxima de Cuba, temia que se lançasse candidato.
A gravação que vem a público agora revela o que já se sabia nos meios políticos venezuelanos: a retórica exacerbada de Maduro é o grito desesperado de um presidente fraco, que sabe que tem pelo menos metade do país contra o regime que lidera e que pode ter minada a sua autoridade pelos próprios “companheiros”.
Se Maduro não derrubar Cabello, Cabello ainda acaba derrubando Maduro. Qualquer das duas coisas é boa para o povo venezuelano porque será um tiranete a menos. Aí será preciso se livrar do outro.
Por Reinaldo Azevedo

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