Lição do Brasil? Em que área?


Quem disse que o Brasil pode dar lições ao mundo ou ser um exemplo a seguir? Muito se ouve e se lê a respeito do papel de guia do Brasil no mundo e isso, obviamente, é superestimado. Com exceção da área ambiental, onde o Brasil pode fazer história aliando desenvolvimento com preservação,  em muitas outras o Brasil ainda tem muito a aprender com países estrangeiros, é inegável. E não é porque a economia tem se comportado bem nos últimos anos que servimos de farol para outros. Europa e EUA não ficarão para sempre em crise e o Brasil já dá sinais de cansaço econômico quando cresce 2,7%, como aconteceu no último ano. A Alemanha, que dizem estar em crise, cresceu 3% no mesmo período.

Na Veja desta semana encontrei um ótimo texto do jornalista J.R. Guzzo sobre aquilo que se costuma achar no Brasil sobre alguns países do mundo, neste caso, a França. Reproduzo trechos:

A França de hoje tem muito mais do bom do que do ruim ─ e nesses casos o melhor que pode lhe acontecer é ir se segurando mais ou menos onde está.
O fato que realmente interessa, e do qual bem pouco se fala, é o seguinte: a França é um dos países mais bem-sucedidos do mundo. Tem problemas, claro, e alguns deles são até reais. Mas é um país de verdade, com 65 milhões de habitantes, e não um parque de diversões ─ e tem uma situação admirável para quem chegou a esse porte.
Não há um único buraco em seus 11 000 quilômetros de autoestradas de primeiríssima classe. O trem-bala existe; está sempre no horário, mantém velocidade média de 300 quilômetros por hora e sua rede já é cinco vezes maior que o trajeto entre Rio de Janeiro e São Paulo. A França tem um PIB per capita acima dos 42 mil dólares anuais.
Soube aproveitar com inteligência, rapidez e eficácia todo o avanço tecnológico das últimas décadas. Produz mais que o Brasil, num território equivalente a 6% do nosso e com um terço da nossa população. O salário mínimo é cinco vezes superior ao brasileiro, a saúde pública é impecável e a classe C já emergiu 100 anos atrás.
O cidadão francês não sabe o que é um assalto a mão armada, e não tem a menor ideia do que possa ser um arrastão em prédios de apartamento. Nunca ouviu falar em firma reconhecida, nem em desabamento de morros. Desconhece a existência de filas de ônibus. Rouba-se pouco, e jamais com prejuízo para os serviços públicos.
Os fiscais não extorquem: apenas fiscalizam. A soma de todas as suas dificuldades, considerando-se a vida como ela é, parece uma brincadeira quando comparada à de certos Brics, a começar pelo que é representado na letra B.
A França, certamente, tem complicações sérias, como o desemprego e a invasão de seu território pelos pobres do mundo que, por bem ou por mal, querem emigrar para lá. Também tem uma paixão mal resolvida, e provavelmente sem solução, pelo “Estado forte”, a quem se atribui poderes comparáveis aos de Nossa Senhora de Lourdes. Já conseguiu ter um Ministério da Educação e outro do Ensino Público, e mantém curiosidades como o Ministério da Coesão Social ou o da Ruralidade.
Sarkozy, com o seu estilo MMA de governar, não conseguiu diminuir nenhum desses problemas; também não os tornou piores do que eram ao assumir. Hollande, que carrega o malvado apelido de “Pudim” e tem como principal destaque de sua carreira o fato de nunca ter se destacado em nada, parece o homem certo para repetir o mesmo trajeto.
Melhor para a França. Ela tem a sorte de não precisar dos seus políticos para conservar tudo aquilo que já soube construir.
Era costume dizer que um dos primeiros sinais da velhice aparece quando o indivíduo começa a ser chamado de “senhor” pelo médico (ou, pior ainda, pelo padre), e já trata um e outro de “você”.
François Hollande acaba de dar uma nova contribuição para as práticas populares de contagem do tempo. Em sua juventude, foi um fã entusiasmado de Jimi Hendrix ─ e, quando alguém que pode tornar-se presidente da França tem no seu álbum de ídolos alguém como Jimi Hendrix, ficamos avisados, mais uma vez, de que a vida está passando depressa. 

(do blog de Hadriel Ferreira)

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