Darwin e as Escolas.

Vou escrever um pouco sobre um homem que mudou a forma como a humanidade era vista e considerada durante milhares de anos, e que também mudou muito as formas de observarmos a natureza ao nosso redor. Esse homem foi Charles Darwin, um naturalista inglês que pôs o homem no seu devido lugar entre as espécies.

Resolvi falar dele, pois estou cansado de ver a forma errônea como ele e suas descobertas são tratados nas escolas ( ao menos em todas onde estudei e, até hoje, na escola onde trabalho). Não sei se por despreparo, má-fé ou incompetência (ou tudo isso junto), os professores de todas as áreas, já que a obra de Darwin abrange várias ciências, o tratam como alguém mentiroso ou um simples especulador, explicam erradamente os seus conceitos e até o demonizam, além de levantar suspeitas nos alunos sobre o fato de que todas as espécies se transformam ao longo do tempo, até a nossa recente espécie humana. Estou cheio disso. É uma praga esse obscurantismo religioso e esse fanatismo cego que tenta desvirtuar o homem como único responsável por suas decisões e tenta pôr o resultado de nossas decisões nas mãos de divindades. Se tivesse filhos, não teria a coragem de pô-los em escolas, mesmo sendo um professor. Mas vamos ao que interessa.

Charles Darwin é um paradoxo. Não para a ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e comemorado como ponto de partida para um grau de conhecimento nunca antes visto sobre os seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia (incluindo a medicina e a biotecnologia) simplesmente não faria sentido. Suas ideias causam mal-estar entre um grande contingente de pessoas, a grande maioria fervorosos religiosos que não aceitam que não somos tão especiais e exclusivos assim para a natureza. Fiquei espantado ao saber que, até nos EUA, o país que dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. A grande maioria das pessoas ainda acredita que nós e todas as coisas que nos cercam, estamos aqui por dádiva da criação divina. Até na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas ideias ou as veja como pura enganação (agora entendo o porquê do que ocorre também aqui no Brasil).

Eu, pessoalmente, acredito que para se entender Darwin é preciso recuar ao seu período. Quando ele propôs suas teses sobre a evolução pela seleção natural, a maioria dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000 anos de existência ( se prega isso ainda nas igrejas, mesmo com infinitas provas e fósseis a granel por todo o mundo), que as maravilhas da natureza fossem uma manifestação da sabedoria divina. Quando se falava dos fósseis, a hipótese mais aceita era que se tratavam de criaturas que perderam o embarque na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio. O livro de Darwin, A Origem das Espécies, foi como um tsunami naquela época. Darwin tinha desmentido os biólogos que afirmavam que as espécies são imutáveis. A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e os animais da forma como os conhecemos. A sociedade se chocou com a tese de que o homem não é um ser especial na natureza e, ainda por cima, tem parentesco com os macacos. Havia, naquele momento, grande insatisfação e fúria contra suas ideias. Uma das grandes mentiras sobre a evolução é a velha história-clichê muito difundida, até nas escolas (principamente nelas), de que o evolucionismo afirma que o homem atual veio do macaco. Semana passada tive de desmascarar um pseudo-professor de ciências que, vejam só, estava espalhando essas bobagens sobre Darwin. Tive de recorrer ao bom e velho Almanaque Abril para pô-lo no recanto da sua incompetência. Nenhum livro sério ou pessoa séria sai dizendo isso por aí. O que as ideias evolucionistas defendem é que o homem e os primatas tiveram um ancestral comum, evoluíram da mesma base porém seguindo ramos diferentes e dando origem à espécies distintas mas muito semelhantes, quase iguais até na carga genética: 98% no caso dos chimpanzés. Com frequência meus alunos me perguntam a respeito disso e em que acredito. Paro outros assuntos e faço questão de explicar da forma mais compreensível possível esse assunto tão importante. Não compreendo a má vontade da maioria dos professores em ser claros e transparentes, ao invés de ficarem pregando paraíso celestial e temor de castigos por conta de seus pecados, como fazem nas malfadadas aulas de religião, onde o que há é uma catequização ou bitolação em massa, verdadeira lavagem cerebral. Sei da história cristã brasileira e da importância disso para a nossa cultura, como nação e base de um povo. Mas obscurecer assuntos que não agradam, mesmo sendo tão relevantes para a humanidade é o caminho certo? Acho que não. As evidências que sustentam o darwinismo são hoje gigantescas. Quando da minha discussão com o prof. de ciências, ele sacou da ideia de que o evolucionismo era apenas uma teoria. Pura falta de leitura e preguiça de estudar. Em seu significado coloquial, no senso comum, teoria é sinônimo de hipótese, de achismo. Mal sabia ele e milhões de professores que reclamam de salários mas ganham até além do que merecem que, nesse caso, teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses testadas e comprovadas por leis e fatos científicos. Resumindo: uma linha de raciocínio confirmada por evidências e experimentos. Outras bases da ciência moderna, como a teoria da relatividade (também confirmada) de Albert Einstein, não causam tanta desconfiança e hostilidade. Poucos se incomodams diante da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz. Claro que a irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. As descobertas de Darwin e Lamarck, outro cientista inglês, enfraqueceram o único bom argumento disponível para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada indivíduo. Sigmund Freud disse um dia: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal". Pelo raciocínio de Freud, a raiva contra a evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.Faz sentido até aqui em Rondônia, onde as pessoas ainda vivem na Idade Média das crenças religiosas (Pernambuco não é diferente, sabem disso).

O grande biólogo americano Stephen Jay Gould, dizia que as teorias de Darwin são tão mal compreendidas não porque sejam complicadas, mas porque muita gente evita entendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Para as forças reinantes na natureza como o vento, as águas e o fogo, a vida humana vale tanto quanto a vida de uma pulga ou de um grilo. Infelizmente, a evolução é vista por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos. Vi no Almanaque Abril a aceitação do darwinismo ao redor do mundo. Lá mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia, o norte gelado da Europa. A crença na evolução é inversamente proporcional à crença em Deus.

É claro que a ciência não tem as respostas para todas as perguntas. Isso vai acontecendo aos poucos, com estudos e pesquisa. Mas prefiro ficar com a ciência. O fato é que a luta contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, as pessoas têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impor essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural, pelas crendices e lendas.

Darwin foi um gigante. Produziu uma revolução que alteraria para sempre os rumos da ciência. Mostrou que todas as espécies descendem de um ancestral comum, uma forma de vida simples e primitiva. Mostrou também que, pelo processo que batizou de seleção natural, as espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações que são transmitidas a seus descendentes. Essas mutações podem determinar a permanência da espécie na Terra ou sua extinção, dependendo da capacidade de adaptação ao ambiente. Após sua morte, muitos cientistas comprovam ano após ano a força das suas descobertas, como o DNA, por exemplo, responsável pela transmissão de características. Não existiriam todos esses avanços da medicina, das vacinas, dos tratamentos, dentre tantas outras áreas, sem Darwin. Pena que o mundo ainda não lhe deu o crédito devido. Não tenho nada contra as crenças de ninguém. Apesar do PT, ainda temos uma relativa liberdade. Apenas questiono certos dogmas e doutrinas que, se analisados à luz da razão, são como poeira ao vento. O grande Carl Sagan, que vejo sempre no youtube com a ótima série Cosmos, dizia: ''Se você quiser salvar o seu filho da pólio, você pode rezar ou você pode vacinar... Tente a ciência''. É preferível dá ênfase à vida terrena ao invés de passá-la em prol de uma duvidosa e suspeita nos jardins celestiais. Uma só já é trabalhosa demais, imaginem ainda ambicionar outra...


Hadriel

2 comentários:

  1. Caro Rafael, como fica agora essa história da saúde de Caetés, será que o Biu Otávio conhece a pessoa, que julgam, esta sendo perseguida? Ou na verdade o povo é quem não tem nada nesse hospital de /Caetés, e pra onde vão as verbas que vem ???? será que sabem ???

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  2. Eu, graduando em Ciências Biológicas, sinto-me inspirado a compreender e refletir sobre o Evolucionismo e barrar essa ideia de que o homem provém do macaco. Ótimo texto Hadriel.

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