SUPERPOSIÇÃO DE IMAGENS

Spielberg, em suas “ficções cinematográficas”, utilizando todos os recursos do cinema moderno, consegue realmente traduzir com toda a veracidade a relação presente/passado e espaço/tempo, tal como ela realmente se dá.

Chego mesmo a imaginar que a criatividade dele consistiu, principalmente, em levar para a” grande tela”, o que está dentro de todos nós. Ele, consegue nos mostrar de uma forma um tanto engraçada e cheia de efeitos especiais, a perfeita intercessão entre hoje/antes/depois e novo/velho/novo.

É claro que para ver isso é preciso se observar !

Quem de nós nunca “experenciou” uma situação de projeção de futuro, ou de volta para o passado, se sentindo, ao mesmo tempo, um ator e observador de si mesmo, e se divertindo com o novo/velho e o ontem/hoje/amanhã, andando juntos ?

É só nos darmos ao trabalho de observar essas situações e acharemos a experiência tão fantástica quanto um filme de Spielberg. Tem mais...,todos os efeitos especiais utilizados por ele, serão absolutamente desnecessários, porque essas coisas assumirão “um ar” de realidade/naturalidade “bem normal”.

Estou escrevendo sobre isso porque tenho uma experiência “bem fresquinha” sobre esse assunto. No último 26 de março, tive a oportunidade de voltar a Garanhuns, minha terra natal, depois de 12 anos de ausência. Foi uma verdadeira viagem espacial/temporal - quase fico louca de excitação, prazer e estupefação !

A cabeça estava cheia e ao mesmo tempo vazia, no sentido em que ela, em absoluto, não sentia nenhum peso..., só integrava tudo o que vinha e deixava fluir.

De vez em quando, eu abria um parêntese entre meus pensamentos, sentimentos e emoções e dizia para minha colega de trabalho, que estava ao lado, qualquer coisa do gênero: “espera aí um pouquinho, tou me imaginando correndo nessa rua...” – ela ria muito e eu parava e ficava quietinha, só olhando. Nessa peregrinação, visitei o Colégio Santa Sofia, a Igreja Matriz, a rua Dom José e andei para cima e para baixo na Avenida Santo Antônio, a rua principal do comércio e onde ficava a casa em que morei na infância.

Como se isso não bastasse, o destino ainda “deu uma mãozinha”, trouxe para Garanhuns um amigo da “contemporaneidade adulta”, que estava morando por lá. Nos encontramos em um bar e conseguimos juntar em uma mesa, além de nós : um cara que escrevia no jornal da cidade e tinha conhecido meu pai e irmãos e um representante do “Boi Macuca”, banda musical, que tinha se encontrado com minha filha e ex-marido, em 1998 na Copa do Mundo, na França. Enfim, a mesa estava posta para todas as conexões possíveis e o papo foi delicioso – ricamente temperado.

Não só me imaginei, como realmente me senti, pequena e grande, no Garanhuns antigo e novo.

Todo o progresso e desenvolvimento da cidade, que no início me causaram um certo impacto, se fundiram numa mistura uniforme com a mesma cor, alternando apenas os tons.

Compreendi que, mesmo me cognominando “cidadã do mundo”, por ter morado a maior parte de minha vida em vários outros lugares, o núcleo de meu mundo é Garanhuns, por mais distante que eu aparente e pense estar, dessa cidade. Enfim, Garanhuns está entranhada na paisagem de meu imaginário e eu estou descobrindo isso agora.

Fui a Garanhuns fazer uma Terapia Comunitária com um grupo de colegas de minha instituição de trabalho e, foi muito engraçado. Na condução de todo o processo de grupo, houve momentos em que tive vontade de rir por me aperceber que estava fazendo um trabalho de adulto em uma terra que eu só me via como criança e, ao mesmo tempo, estava lidando com pessoas que tinham se tornado adultas, em minha cidade de infância. Bom, acho melhor eu parar por aqui..., acho que deu para entender, não deu ?

Márcia Suelena

20 de maio de 2008.

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